26/04/2010

25 de Abril -A festa de são Marcos em Santo António das Areias – Concelho de Marvão – Rui Arimateia


Entra Marcos! Entra Marcos!...
Com esta invocação o bom padre João, há já quase setenta anos conseguia amainar a fúria incontida e natural existente em potência dentro do bezerro, ou toirinho, que os festeiros com as suas opas vermelhas e empunhadas varam – ainda na altura denominadas “tocheiros de S.Marcos” e que se acendiam na procissão – iam escolher ao recinto da feira do gado nos arrabaldes logo contíguos á aldeia.
O bezerro, todos os anos pelo dia do santo, era oferecido por um lavrador, da aldeia ou redondezas. E era uma honra oferecer um toirinho para a festa, pelo S. Marcos. O animal para oferta, distinguia-se dos outros, no terrado da feira do gado, pelo facto de ter antecipadamente marcado, enfeitado, apresentando um laço vermelho, preso entre os cornos. O lavrador, autor da oferta saia prestigiado perante os demais, dai o grande interesse e o facto de nunca faltar o bezerro para a função. A maioria das vezes, contudo, a oferta de um bezerro para o Santo resultava de promessa e, desde o nascimento chamado Marcos.
Era uma festa cuja origem se perdia na lonjura dos tempos e importantíssima para a aldeia e para a região
Durante três dias havia a já referida feira do gado, assim como Arraial no largo envolvente da Igreja Paroquial. Romaria a que não faltava a música com a indispensável presença por vezes de três bandas Filarmónicas da região, normalmente rivais umas das outras. No largo junto ao templo, formava-se com carretas e carroças o recinto para as inevitáveis touradas; ainda havendo quem se lembre igualmente das “cavalhadas” (isto é, corridas de cavalos ou animais congéneres…) por altura do S.Marcos.
Durante três dias os habitantes e os forasteiros podiam divertir-se com festa rija, sendo costume de bom-tom vestir-se o fato novo pelo S, Marcos, para receber os forasteiros, familiares ou não. E é interessante notar a enorme afluência de “primos” espanhóis das imediações próximas da fronteira, como por exemplo de Valência de Alcântara. Tão importante que estas festas de São Marcos foi e tão intimamente marcou as povoações da raia espanhola que a aldeia de Santo António das Areias era conhecida por S.Marcos, devido exactamente á importância que os espanhóis davam á festa, acorrendo principalmente para presenciaram a bênção do tourinho de São Marcos, e as touradas…
Touradas, foguetes, feiras do gado e de quinquilharias e de comes –e –bebes, bandas de musica no coreto, promessas ao Santo, leilão do bezerro após a cerimonia, procissões, orações, fato novo a estrear, o característico almoço de São Marcos…tudo isto, juntamente com o reboliço alegre e saudável de milhares de convivas que por aquele terreiro de arraial passavam durante três dias em S. António das Areias…e sabe-se lá desde há quanto tempo, tudo isto, repito, constitui a romaria de S.Marcos que bem fundo tocou os moradores da Aldeia . E ainda hoje toca, apesar da tradicional cerimonia da bênção do ou dos bezerros de S.Marcos ter sido anatematizada pelas autoridades eclesiásticas nos anos 20, pelo facto do touro entrar solenemente na capela.
Entra, Marcos! Entra, Marcos!...
E uma vez mais o bom padre de nome João, empunhando firmemente o hissopo, comprido por uma multidão ávida de presenciar a chegada do bezerro acompanhado seu harém (pois sempre duas ou três vacas o acompanhavam á porta do templo). E eis que já se ouvem os gritos dos festeiros – somente-homens – e já se vislumbra as suas varas de função e de direito – os tocheiros de S. Marcos – e as suas opas encarnadas. E o boi vem vindo através de um corredor vivo de humanos, pois o largo encontra-se pegado de gentes de todas as condições…
Defronte da porta principal já o bezerro é intimidado a parar e, de seguida, a dirigir-se mansamente para o interior do Templo sob a invocação firme e prenha de sentido do padre João:
Entra, Marcos! Entra, Marcos!...
“Coisas da providência”diriam alguns crentes do costume, ao ver acontecer aquela maravilha – o facto de um bezerro se tornar manso, ao ser convocado e convidado a entrar no Templo pela água benta e pelo nome do Santo se acalmar, apesar da multidão febril de excitação e altitroante, que o rodeava, o comprimia, e obedecer prontamente ao Sacerdote…
Gesto quantas vezes repetido ao longo dos séculos de duração do costume, por todos os sacerdotes de nome João!?...Porém, eficaz na sua ritualistica, se efectuar com convicção e com a precisão e o rigor conferidos pela tradição.
O animal, tocado nas suas essências anímicas, amansava e seguia o gesto, o movimento e a palavra do padre João, ate junto do andor do santo, colocado para o efeito do altar mor da igreja…chegado ai, lambia o bezerrinho do S. Marcos, ouvia uma curta prédice e bênção em ordem, saindo depois, sempre enquadrados, o boi e o sacerdote, por muitas centenas de curiosos, crentes e outros. Porém, o tourinho saia do templo a recuar pela simples razão de que não havia espaço que permitisse ao animal dar a volta, dentro da igreja.
No curto espaço que ficava sem gente no adro da igreja, saia o bezerro onde era leiloado, revertendo a verba conseguida para os festeiros, a fim de cobrirem as despesas dos três dias de duração da festa. Todo o lavrador, ou outro, que comprasse no leilão o bezerro de S.Marcos, auferia igualmente de prestigio…comprando-o muitas vezes o mesmo que o oferecia.
Não obstante a enorme popularidade do Ritual e da Romaria, o que é certo é que há cerca de sessenta e oito anos a festa em Santo António das Areias foi proibida pelas autoridades religiosas. Consequentemente, a afluência de forasteiros, principalmente origem espanhola, decresceu significativamente. Os festeiros ainda tentaram, por altura proibição, uma artimanha, fazendo construir uma pequena capela efémera ao lado da Igreja Matriz e ai continuar com a cerimónia da “entrada”do bezerro no espaço sagrado até chegar junto do seu congénere de S.Marcos, mas…mão pegou… nem com a autoridade (quer insistiu na proibição), nem com os espanhóis …que de vir com aquela entusiasmo e garridice que tão bem caracteriza os nossos vizinhos…
Restou tão só a bênção ao gado oferecido ao Santo (ainda hoje) e o consequente leilão e feira, mas aquele frenesim pagão, aquela força ritualistica e anímica, conferida pela cerimonia da entrada do boi na Igreja, tudo isto se perdeu… tão só perdura na memoria dos mais idosos…os que ainda foram festeiros, os que seguraram os tocheiros de S.Marcos e ataram os cornos do bezerro com a fita vermelha e o conduziram ate ao bom padre João que o aspergia de água benta e o conduzia mansamente, perante o andar Santo ciclicamente ano após ano e quase sempre o “milagre”da mansidão acontecia….
Entra! Marcos! Entra! Marcos!...
Mas a festa na Aldeia era total: acontecia na praça, isto é, no Arraial, mas também se vivia sentidamente em casa. Ai era ocasião de se confeccionarem os acepipes gastronómicos regionais servidos durante o almoço de S. Marcos, no dia do Santo a 25 de Abril. Para festejar o Santo e brindar os familiares e amigos tinham principalmente a canja de galinha velha e o arroz – doce; e ainda as sopas de sarapatel confeccionadas com borrego ou chibo juntamente com sangue e miúdos – e o afamado Ratatau-carne de chibo guisadas com batatas – variante do ensopado alentejano, e ainda os pasteis de carne crua, os bolos fintos “dormidos “ e empadas de galhinha …e claro, todos os pitéus regados com o bom vinho da região.
(…)



excerto de

ARIMATEIA, Rui, A Festa de São Marcos e a religiosidade popular in Ibn Maruan. Revista Cultural do Concelho de Marvão, nº2, Marvão, Câmara Municipal de Marvão, 1992 (p.18-22)

1 comentário:

zira disse...

Excelente pesquisa e divulgação para todos os que gostam de saber "os porquês".
Bem-hajam